As minhas mãos vão perdendo a cor aos poucos, só consigo
avistar as veias, e até as sinto mais vivas do que a minha alma. Á medida que
os meus olhos olham em redor, vejo que o mundo está tão sem cor, não tem
alegria… e assim me pergunto, se é a visão real dele, ou se é a minha própria
visão do mundo. Caminho em frente, sem saber qual o destino, os passos vão
ficando mais curtos e incertos, olho para o ceu da noite escura, a calma está
por cada canto da cidade, reparo nas estrelas… A sua beleza encanta-me, não
lhes posso tocar mas consigo apreciar nada raio de luz que ilumina o céu desta
noite tão fria. Parece que a única coisa que me faz sentir viva é a melodia de
cada musica que está presente nos meus dias e sentir a brisa do vento a passar
cada parte do meu corpo, faz-me sentir de certa maneira livre, mas não me sinto
livre ao todo, como se eu tivesse presa dentro de mim mesma onde os pensamentos
parecem não ter fim e eu não encontro forças para encarar isso sozinha. Vejo-me
ao espelho e a minha imagem não reflecte o que antes me habituara a ver, já nem
emoção de encarar a vida se encontra nos meus olhos, cada parte do meu cabelo
cai sob a minha face, como se eu me tivesse a proteger de algo. A minha
respiração vai ficando lenta e incerta, olho mais uma vez em redor e é incrível
como tudo parece tão banal, nada muda… a vida continua sem cor, e eu continuo
sem paciência para lhe arranjar alguma cor que a alegre. Sinto a pulsação do
meu coração, e isso é a única coisa que me faz ver que estou viva, mas não dou
qualquer sinal da minha existência, porque por dentro sinto cada pedaço meu a
adormecer aos poucos, a minha alma está calma…como se já nem estivesse mais
vida. Limito-me a adormecer e acordar a pensar no mesmo, a abrir os olhos e
fecha-los, mesmo muitas vezes forçada, como se estivesse programada para tal,
porque nem para isso tenho motivação. Já é de dia, consigo avistar os raios de
sol a cair sob o chão húmido do meu quarto, consigo sentir os seus raios a
percorrer a minha face, mas nem o seu calor sou capaz de sentir, como se eu
fosse algo sem vida num mundo com tanto movimento, muito mais do que senti
nestes últimos dias. Vou continuar a limitar-me apenas a existir a cada dia,
dias esses que vão ser sem emoção, sem presença de qualquer sentimento, talvez
eu já tenha sentido demais e agora seja altura de um descanso. Os dias vão
perdendo os raios de sol e substitui-se por um céu imenso com estrelas, as
arvores vão perdendo folhas e até mesmo o canto dos pássaros, tudo no mundo se
perde, e acho que a pior coisa que eu já perdi, foi a mim mesma.
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